Ironias

 

Alberto foi um grande amigo. Trocamos confidências em momentos difíceis. Um viu o outro derrotado, partido. Era fascinante como às vezes parecíamos compartilhar de uma mesma alma, um conhecimento mútuo sem igual. Carrego comigo seus conselhos como alguém que furtou uma imagem do altar.

 

2018 foi um ano que dividiu o Brasil. Conosco, não foi diferente. É uma perda. É irreversível. Nunca lidei bem com a decepção, mas a culpa foi minha: Subestimei o peso que a história de um ser humano tem sobre suas escolhas. Acho que foi a amizade mais próxima que tive de um namoro, pois terminou quase tão mal quanto meus relacionamentos amorosos anteriores.

 

Minutos antes de dormir e terminar mais uma semana, dessa vez em uma cama quente ao invés de correr bêbado atrás do último trem de sexta-feira, como eu fazia depois de conversar com Alberto no boteco, vêm a minha mente duas grandes ironias:

 

1) A esposa de Alberto faz aniversário no mesmo dia que eu.

 

2) Ele dizia que o homem devia ser livre para escolher, desde que tivesse uma base moral, “como alguém que mora em uma esquina, diante de uma igreja”. Hoje moro na esquina da Rua dos Encontros com a Corcovado. Ao atravessar esta última, chego à Paróquia da Imaculada.

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