Eu descia do trólebus, passava pelo homem que vendia
cintos em um carrinho, mas que só o abriria para vendas mais tarde, e
atravessava a rua. Na calçada havia um ponto onde taxistas conversavam,
digitavam em seus celulares ou dormiam no interior de seus automóveis. Atrás,
escurecida pelas árvores, uma pequena praça pela qual eu nunca andei. Um novo
dia como outro qualquer começava no coração de Diadema.
* * *
Os poucos encontros que eu tinha ali eram normalmente
frustrantes, dispensáveis.
Do interior de uma banca de jornal saía música alta,
quase sempre sobre os mesmos temas e sob o mesmo alto volume, coisas parecidas
com amor. “Indiferença ou o dono quer transmitir uma mensagem?”.
Três óticas de prédios com cores predominantes (uma
vermelha, uma azul e outra verde), pouco espaçadas umas das outras, abriam logo
cedo e alguns de seus funcionários já distribuíam panfletos e convidavam os
transeuntes para conhecerem as lojas. Aos poucos fui adaptando meu trajeto,
passando apenas por uma delas (a de cor verde). Mas creio que eles também se
adaptavam a nós, os que estavam de passagem, pois com o tempo já não me
indagavam mais. Talvez tenham memorizado meu rosto ou sentido que eu estava
diariamente apressado. Mas a rotatividade na ótica verde parecia ser alta, pois
amiúde eu via novos rostos e negava novos convites de exames oculares
gratuitos.
Os pedestres locais eram de andar lento, não pareciam
fazer questão de chegar aonde iam. Por outro lado, os motoristas estavam sempre
apressados: Perdi as contas de quantas vezes quase fui atropelado lá. Talvez
eles tenham perdido a hora por estar sob o mesmo sortilégio dos caminhantes, o
qual imediatamente cessava ao adentrarem seus veículos. Orientar-se pelo
semáforo era possível, mas opcional para ambas as categorias: Era imprudência
dos dois lados. Irritado, eu me lembrava da frase de Ghandi, “Seja a mudança
que você deseja ver…” e fechava a cara enquanto aguardava minha vez de passar. Com
o tempo, porém, eu também passei a me descuidar durante as mudanças de fase.
“Água mole em pedra dura…” se tornava cada vez mais apropriado.
Troquei poucos olhares com o pessoal de lá. Tenho o
costume de observar o grande relógio de uma loja, quase sempre exibindo as
9h15, a praça que dá nome ao shopping, com seus ginastas, enamorados e músicos
solitários, e o letreiro desse último, já dando sinais da inevitável vitória do
tempo. Dedico-me a eles a fim de não encarar ninguém. Lembro-me de um sorriso,
um olhar de espanto e um também de certa hostilidade, talvez por eu ainda
reconhecer que estava em uma pandemia, entrando em outra (varíola, pessoal) e
usar máscara – mas esse último tipo de comportamento eu também notava em outros
lugares por onde andava. “Talvez sigam a mesma cartilha política ou sejam da
mesma seita, sei lá”…
* * *
Aquelas manhãs também tinham seus personagens, diferentes
dos que eu via à tarde (tema para um possível texto futuro, quem sabe). Em dias
quentes ou frios, uma mulher se sentava sobre um dos gramados da Praça da Moça.
Falava sozinha em alto e bom som, com um olhar agressivo para o nada. “O que
houve com ela? O que está havendo com ela?”. Um casal de idosos passeava com seu Whippet.
Pareciam saudáveis e eu não me surpreenderia se tivessem uma idade superior à
que eu tentasse adivinhar. Já outro homem idoso, também saudável, de tatuagens
religiosas, mexia os braços e o peito enquanto caminhava, tal como um pombo. Outro
homem um pouco mais novo, alto, forte e de cabelos e barba grandes, balbuciava exaltado
para algumas pessoas ao seu redor, isolado em sua mudez e talvez insanidade.
Antes de atravessar o último semáforo, o mais traiçoeiro
de todos, ignorado por muitos motociclistas, eu passava também por dois
cachorros, desses que os donos deixam aprisionados em suas casas. Talvez por se
movimentarem pouco, eu pude apreciá-los melhor que os indivíduos do parágrafo
anterior. Atrás de uma grade, um Otterhound encardido tomava sol enquanto
observava o exterior, emanando firmeza, paciência e resignação com a própria
sina. Adiante, um velho caramelo-simpatia tinha muita comida no prato e um
olhar triste que me perfurava o coração. Com alguns excrementos diante de sua
casinha de madeira e pouco espaço para andar no que parecia ser uma garagem,
ele aguardava um fim iminente – espiritualmente partido, não parecia mais estar
ali. Certo dia, eu me deparei somente com a casinha vazia, a qual foi
substituída algum tempo depois por um automóvel. E aquela terrível mistura de
tristeza com alívio, típica de constatações como essa, me invadiu como um
sedativo.
Às vezes eu me deparava com um imigrante, vizinho do
prédio onde eu trabalhava. Já teve restaurante, padaria e mecânica em frente ao
laboratório. Os negócios não deram certo, mas ele permanecia o mesmo:
Transparecia uma felicidade séria, sendo muito simpático quando o
cumprimentavam, abandonando temporariamente sua absortidão peculiar.
Frequentemente conversava com um tipo bem menos amistoso e sem cabelo,
provavelmente seu irmão, dadas as alturas e idades aparentes similares.
* * *
Ontem eu me dei conta de que estas manhãs estão contadas.
Haverá um dia em que não verei mais esse lugar por diversas razões possíveis. E
é natural que, com a noção de finitude das coisas, venha também algum tipo de
carinho por elas, pelas experiências que desencadeiam e seus mistérios – o tipo
de coisa a respeito da qual eu me flagraria pensando e sorrindo daqui algum
tempo, dada a simplicidade das coisas que mexem comigo. Eu as viverei enquanto
puder – para não sentir sua falta depois e seguir o meu caminho com
determinação e sem destino.