Diálogo 2


Primeiro jogamos uma partida de xadrez no jardim de casa. Depois tomamos uma cerveja e brincamos de Abujamra.

 

- O que é a vida?

 

- A vida é um jogo que eu sei que vou perder, um jogo maravilhoso, que eu não consigo parar de jogar.

 

- Então o que é a morte?

 

- É o alívio que eu não quero. 

Ironias

 

Alberto foi um grande amigo. Trocamos confidências em momentos difíceis. Um viu o outro derrotado, partido. Era fascinante como às vezes parecíamos compartilhar de uma mesma alma, um conhecimento mútuo sem igual. Carrego comigo seus conselhos como alguém que furtou uma imagem do altar.

 

2018 foi um ano que dividiu o Brasil. Conosco, não foi diferente. É uma perda. É irreversível. Nunca lidei bem com a decepção, mas a culpa foi minha: Subestimei o peso que a história de um ser humano tem sobre suas escolhas. Acho que foi a amizade mais próxima que tive de um namoro, pois terminou quase tão mal quanto meus relacionamentos amorosos anteriores.

 

Minutos antes de dormir e terminar mais uma semana, dessa vez em uma cama quente ao invés de correr bêbado atrás do último trem de sexta-feira, como eu fazia depois de conversar com Alberto no boteco, vêm a minha mente duas grandes ironias:

 

1) A esposa de Alberto faz aniversário no mesmo dia que eu.

 

2) Ele dizia que o homem devia ser livre para escolher, desde que tivesse uma base moral, “como alguém que mora em uma esquina, diante de uma igreja”. Hoje moro na esquina da Rua dos Encontros com a Corcovado. Ao atravessar esta última, chego à Paróquia da Imaculada.

Sorte-Morte

 

Todo homem tem sorte, por maior que tenha sido seu esforço, por mais difícil que seja pra gente enxergar e ele admitir. Sorte de sua gente quando ele morre. Se eu tiver em vida muita sorte, ela eu devolverei aos meus herdeiros e à Terra que tanto cansei. Devolverei com minha morte. E sorte a minha se nessa hora eu já estiver cansado da vida. Então será sorte a minha, a minha morte.


Coisas

 

Desde o dia em que comecei a morar na casa de Dóris e, consequentemente, a ter livre acesso aos armários de seu quarto, com muitos objetos seminovos e outros ainda lacrados em suas embalagens originais, um pensamento me vem à mente: É incrível como as coisas se tornam inúteis depois de morrermos.

Sede


A vontade de escrever é um tipo de sede. Quando ela se abate sobre mim, é porque é urgente, o tipo de gesto sem o qual não é possível sobreviver. Ainda que seja aliviada somente uma vez ao dia, ainda que seja após longas jornadas silenciosas. Talvez porque, tal como a súbita busca por água, evidencia prolongada negligência consigo. Posso ignorá-la, mas sem deixar de temer consequências ruins: Com ela sinto o gosto das águas salobras de dentro, densas gotas que afogam e queimam. Mas a água salobra não pode matar a sede. Ela apenas pode matar.

No meio-fio


Dia ruim no trabalho. Bom dia, pensar...

Com a marcação de ponto, vem um sentido artificial para a vida e toda uma luta para a manutenção dele. Assim se afastam de nós aquelas questões sobre as quais se debruçam os filósofos e que afligem o coração dos poetas. A parede transparente do aquário então se metamorfoseia em um horizonte infinito. A melancolia é apenas o choque entre a testa e o vidro. Duas vezes pobres filósofos, duas vezes malditos poetas.

Sobre o meio-fio, vacilo. Perto dele aterrissei há treze anos na Pereira Barreto, às seis da tarde de uma sexta-feira. Em meio ao clarão e o sangue, parei por alguns instantes de olhar para trás. Finalmente vi como a felicidade é simples e a vida, frágil.

Amanda


Eu devia ter meus quatro, cinco anos… As coisas mais antigas que consigo lembrar são dessa época. Não me recordo de nada antes nem depois nesse dia. Eu só me lembro de quando conheci Amanda.

 

Não me lembro do raio, mas provavelmente foi por causa de um que o interior da casa ficou escuro e, na ausência do que fazer, saí de lá de dentro com meus pais, tal como fiz durante outras quedas de energia elétrica. Para ver o tempo mudar. Chovia, trovejava, ventava…

 

Até então, na minha breve existência, eu nunca tinha sentido algo tão forte, algo que me fizesse temer por um mal desconhecido, inominável. Eu sentia a angústia pela primeira vez.

 

Chorei. Levantei as mãos para o céu. E pedi a Deus que fizesse aquilo tudo parar.

 

Muitos anos se passaram. As angústias também. Apareceram, multiplicaram-se, sumiram. Fazem parte das invenções do homem branco e de sua relação com o tempo. E não apontem seus dedos para meu rosto pálido, dizendo que sou um, pois seus próprios brinquedos dirão que no meu sangue há pelo menos três. E no de vocês também.

 

Mas Amanda não me deixava mais daquele jeito, foi assim somente quando A conheci. E sinto medo só de pensar que Ela um dia poderia partir, fazendo com que lá fora, um dia, se torne seco e sem vida.

 

Ainda me lembro da força que Amanda tinha naquele dia. Mas é mais comum encontrá-La de bom humor. E Seus passos pelas telhas e a terra me acalmam. Ao invés de me amedrontarem, me adormentam.

 

Amanda é mais forte que minha angústia. Quando Ela chove lá fora, chove aqui dentro também.

Suzurantõ


O programa foi bem simples. Encontramo-nos nós sete na estação, fomos a um restaurante, depois a uma galeria e, finalmente, a uma cafeteria. Mas o roteiro foi escrito no caminho, tal como fazíamos há alguns anos.

 

– Só sei aonde devo ir quando vejo isso – apontou para as lanternas decorativas no poste vermelho.

 

– Eu também – concordei sorrindo sob a máscara.

 

O nome do bairro me parecia tão irônico naquele domingo…

 

Perdera-se voluntariamente o ir e vir: Era impossível andar por ali sem aguardar alguém, desviar de alguém, esbarrar em alguém. “Fidedigno: Populoso como a China!”.

 

E todos eram submissos, tal como os escravos africanos que pereceram naquelas mesmas terras ou os imigrantes orientais forçados a ali se reinventar:

 

Os motoristas que eram obrigados a atravessar aquelas ruas se submetiam aos transeuntes, os quais, por sua vez, se sujeitavam uns aos outros.

 

Perdia-se o dia em suaves prestações de alguns minutos, imortalizando o que não se vivia em dispositivos por meio da fotografia, edição por filtros e redação de legendas, furtiva produção em série. “Venha a este ponto turístico. Não é preciso fazer turismo. Basta dizer para seu público que é turista. Que está turista”, letras miúdas nas entrelinhas. Vinham à tona em qualquer lugar com alguma fama ou história.

 

Buscava-se algo sem saber o que era ou sua finalidade. Alguns, como eu, consumiam porque já estavam lá. “É tarde demais para voltar… Não há o que fazer senão comprar”.

 

Mas quem era eu para falar dos grilhões alheios? “Princípios me trouxeram aqui. Eis os meus, saindo do peito”. 

Curuçá


Desde quando me mudei, perdi uma opção de linha de ônibus e ganhei outra para voltar para casa depois do trabalho. Ou seja, em um primeiro momento, tudo continuava a mesma coisa e nada havia de especial nisso.

 

Ao invés da linha municipal T14, que agora não me servia mais, eu podia tomar agora a S36. Quando a utilizo, vou com um motorista simpático, banguela, que usa um par de óculos e tem voz fininha. Não se dizer se é gordo ou se tem um tumor na barriga, mas é alto e de qualquer forma corpulento. Inicialmente eu tinha a vaga impressão de que seus passageiros eram mais idosos em comparação com os das linhas T14 e I02, mas depois eu notei a presença de indivíduos mais novos. Por outro lado, posso afirmar com um pouco mais de segurança que o Parque Novo Oratório é um bairro mais velho que outros por onde andei.

 

Quando pego esse ônibus, frequentemente me sento nos bancos do fundo, ao lado esquerdo, o que me permite ver, entre outras coisas, o Cemitério Nossa Senhora do Carmo. Como o nome é grande e Maria é uma santa muito requisitada, o logradouro é mais conhecido por Curuçá, tal como indicam os parênteses de uma placa de indicação com fundo azul na Rua Coreia. Na verdade, eu apenas soube do nome mais religioso na semana em que escrevi esse texto.

 

Era difícil, para não dizer impossível, ignorar o cemitério. Talvez seja assim sempre, mesmo se ao invés de “o” fosse “um”. Talvez simplesmente não possa haver “um cemitério”.

 

Geralmente havia pelo menos dois grupos diferentes de pessoas lá: O (s) daquelas pessoas interessadas no (s) morto (s) e outro, menor, composto por aqueles que não estavam. Seriam sempre os mesmos? Trabalhavam lá ou vieram apenas “tomar um ar”? Afinal, há trabalhos ruins… Eles falavam mais, riam. A quantidade de pessoas no primeiro grupo também me induzia a algumas indagações: Um enterro com poucos indivíduos sugere alguém pouco amado? De família pequena? Ou velho demais, cujos amigos morreram antes? Recorrendo à experiência prévia, não cheguei à conclusão alguma. Mas já estive no primeiro grupo. Três vezes, neste mesmo lugar.

 

“Talvez eu prefira a cremação quando chegar minha hora, não apenas por questões ecológicas, que desde cedo me sensibilizaram, mas também para que se despeçam de mim apenas uma vez, evitando assim os inconvenientes oriundos da exumação”.

 

Antes de o S36 virar na Rua Jorge Bereta, era possível ver um exército de pedras brancas no horizonte distante, uma fração das tantas lápides daquele cemitério. Talvez essa fosse a única coisa que me intimidava (ou chocava? Não sei dizer) no Curuçá: Havia muitos corpos enterrados somente naquele espaço reduzido, os quais substituíam outros que em outrora tomaram aquele pedaço de terra de outros. Morria-se muito, ainda que cada um de nós só pudesse fazê-lo apenas uma única vez. Ali havia a certeza de que nada era nosso, tampouco aqueles quatro metros cúbicos, se os vivos assim o desejassem.

Manhã dos últimos cinco anos


Eu descia do trólebus, passava pelo homem que vendia cintos em um carrinho, mas que só o abriria para vendas mais tarde, e atravessava a rua. Na calçada havia um ponto onde taxistas conversavam, digitavam em seus celulares ou dormiam no interior de seus automóveis. Atrás, escurecida pelas árvores, uma pequena praça pela qual eu nunca andei. Um novo dia como outro qualquer começava no coração de Diadema.

 

*          *          *

 

Os poucos encontros que eu tinha ali eram normalmente frustrantes, dispensáveis.

 

Do interior de uma banca de jornal saía música alta, quase sempre sobre os mesmos temas e sob o mesmo alto volume, coisas parecidas com amor. “Indiferença ou o dono quer transmitir uma mensagem?”.

 

Três óticas de prédios com cores predominantes (uma vermelha, uma azul e outra verde), pouco espaçadas umas das outras, abriam logo cedo e alguns de seus funcionários já distribuíam panfletos e convidavam os transeuntes para conhecerem as lojas. Aos poucos fui adaptando meu trajeto, passando apenas por uma delas (a de cor verde). Mas creio que eles também se adaptavam a nós, os que estavam de passagem, pois com o tempo já não me indagavam mais. Talvez tenham memorizado meu rosto ou sentido que eu estava diariamente apressado. Mas a rotatividade na ótica verde parecia ser alta, pois amiúde eu via novos rostos e negava novos convites de exames oculares gratuitos.

 

Os pedestres locais eram de andar lento, não pareciam fazer questão de chegar aonde iam. Por outro lado, os motoristas estavam sempre apressados: Perdi as contas de quantas vezes quase fui atropelado lá. Talvez eles tenham perdido a hora por estar sob o mesmo sortilégio dos caminhantes, o qual imediatamente cessava ao adentrarem seus veículos. Orientar-se pelo semáforo era possível, mas opcional para ambas as categorias: Era imprudência dos dois lados. Irritado, eu me lembrava da frase de Ghandi, “Seja a mudança que você deseja ver…” e fechava a cara enquanto aguardava minha vez de passar. Com o tempo, porém, eu também passei a me descuidar durante as mudanças de fase. “Água mole em pedra dura…” se tornava cada vez mais apropriado.

 

Troquei poucos olhares com o pessoal de lá. Tenho o costume de observar o grande relógio de uma loja, quase sempre exibindo as 9h15, a praça que dá nome ao shopping, com seus ginastas, enamorados e músicos solitários, e o letreiro desse último, já dando sinais da inevitável vitória do tempo. Dedico-me a eles a fim de não encarar ninguém. Lembro-me de um sorriso, um olhar de espanto e um também de certa hostilidade, talvez por eu ainda reconhecer que estava em uma pandemia, entrando em outra (varíola, pessoal) e usar máscara – mas esse último tipo de comportamento eu também notava em outros lugares por onde andava. “Talvez sigam a mesma cartilha política ou sejam da mesma seita, sei lá”…

 

*          *          *

 

Aquelas manhãs também tinham seus personagens, diferentes dos que eu via à tarde (tema para um possível texto futuro, quem sabe). Em dias quentes ou frios, uma mulher se sentava sobre um dos gramados da Praça da Moça. Falava sozinha em alto e bom som, com um olhar agressivo para o nada. “O que houve com ela? O que está havendo com ela?”.  Um casal de idosos passeava com seu Whippet. Pareciam saudáveis e eu não me surpreenderia se tivessem uma idade superior à que eu tentasse adivinhar. Já outro homem idoso, também saudável, de tatuagens religiosas, mexia os braços e o peito enquanto caminhava, tal como um pombo. Outro homem um pouco mais novo, alto, forte e de cabelos e barba grandes, balbuciava exaltado para algumas pessoas ao seu redor, isolado em sua mudez e talvez insanidade.

 

Antes de atravessar o último semáforo, o mais traiçoeiro de todos, ignorado por muitos motociclistas, eu passava também por dois cachorros, desses que os donos deixam aprisionados em suas casas. Talvez por se movimentarem pouco, eu pude apreciá-los melhor que os indivíduos do parágrafo anterior. Atrás de uma grade, um Otterhound encardido tomava sol enquanto observava o exterior, emanando firmeza, paciência e resignação com a própria sina. Adiante, um velho caramelo-simpatia tinha muita comida no prato e um olhar triste que me perfurava o coração. Com alguns excrementos diante de sua casinha de madeira e pouco espaço para andar no que parecia ser uma garagem, ele aguardava um fim iminente – espiritualmente partido, não parecia mais estar ali. Certo dia, eu me deparei somente com a casinha vazia, a qual foi substituída algum tempo depois por um automóvel. E aquela terrível mistura de tristeza com alívio, típica de constatações como essa, me invadiu como um sedativo.

 

Às vezes eu me deparava com um imigrante, vizinho do prédio onde eu trabalhava. Já teve restaurante, padaria e mecânica em frente ao laboratório. Os negócios não deram certo, mas ele permanecia o mesmo: Transparecia uma felicidade séria, sendo muito simpático quando o cumprimentavam, abandonando temporariamente sua absortidão peculiar. Frequentemente conversava com um tipo bem menos amistoso e sem cabelo, provavelmente seu irmão, dadas as alturas e idades aparentes similares.

 

*          *          *

 

Ontem eu me dei conta de que estas manhãs estão contadas. Haverá um dia em que não verei mais esse lugar por diversas razões possíveis. E é natural que, com a noção de finitude das coisas, venha também algum tipo de carinho por elas, pelas experiências que desencadeiam e seus mistérios – o tipo de coisa a respeito da qual eu me flagraria pensando e sorrindo daqui algum tempo, dada a simplicidade das coisas que mexem comigo. Eu as viverei enquanto puder – para não sentir sua falta depois e seguir o meu caminho com determinação e sem destino.

Diálogo 1

 

REGRA: Só vale escrever diálogo de verdade.

 

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Conversa por aplicativo de mensagem sobre penduricalhos.

 

- Nossa, eu tô chocada. Ela tem cara de ter uns 45 anos, mas descobri que ela só tem 36.

 

- O trabalho deve ser bem desgastante… Ou devem ser os genes dela.

 

- Bom, ela ganha 18k.

 

- Ganhou nove anos também.

Deserto


Colocam muitas ideias em nossas cabeças. Algumas simplesmente não vingaram na minha.

 

Minha memória é boa. Pegajosa… Há muita coisa presa nela. Há muitas coisas às quais estou preso.

 

Dizem que meu horizonte não tem paisagens. Mas as paisagens são apenas cortinas que se rasgaram com o peso que delas pendia. O rasgar das paisagens não seria um fenômeno geracional, social?

 

Tentei fugir do deserto. Mas só havia deserto por onde eu andava. O deserto estava em mim.