Ruído

 

Sábados chuvosos demandam planejamento àqueles que não trabalham. Caso contrário, o indivíduo é instigado a confrontar a inquietude de sua mente. Alguns retornam às origens da espécie, época em que nada havia e era preciso criar tudo, o tédio era apenas ócio, tornava-se criativo. Outros simplesmente enlouquecem – voluntariamente, na ânsia de se livrarem de si, ou contra sua própria vontade, sucumbindo aos próprios pensamentos. Se eu dissesse pertencer a um grupo ou a outro, mentiria: Pertencer não era algo possível (ou concebível) para mim.


O ruído de meu pensamento me incomodava, não parecia original. Era possível ouvir uma voz que ficara meio aguda por conta da baixa qualidade das gravações dos anos trinta, quarenta… Provavelmente estava contaminado por Graciliano, já que eu vinha lendo suas memórias da cadeia em minhas idas a Diadema. Todos aqueles que eu lia pareciam interferir na melodia das palavras que vinham à tona em mim, como se eu tivesse absorvido temporariamente a forma de alguém contar histórias. Diferentemente de Paulo Honório, de São Bernardo, eu não fumava cachimbo, mas, tal como ele, bebia café àquela hora.


A chuva era bem-vinda porque com ela vinha a tranquilidade. Os animais da vila estavam quietos, abrigados em suas tocas, de modo que era possível me dedicar a tudo aquilo que demandasse silêncio. Contudo, diferentemente de meu conselho ao iniciar esse texto, eu não havia me planejado. Como sempre, era preciso me adaptar. Eu tinha que lidar agora com o ruído daqui de dentro. Queria eu chover dentro do quarto, de portas fechadas, ressonar e adormecer sossegado com a consequência de meu próprio ser. Mas chover era verbo defectivo, enquanto eu, seco e envenenado, comigo não podia.

Eudaimonia


Quinta-feira, 3 de novembro de 2024.

 

Fim da tarde. Eu voltava de Diadema e já estava na segunda condução, atravessando São Bernardo. Era para ser um dia que se encerrava como outro qualquer, mas foi único. Será que foram as imagens obtidas no microscópio ou foi a música que rimava comigo (https://www.youtube.com/watch?v=PhJz0HyJvcM)?

 

Passei pela parada Planalto e olhei para ela com curiosidade. Por alguns segundos, eu havia me esquecido de que Lucas não poderia mais estar lá àquela hora, esperando por ou descendo de um trólebus, uma vez que ele havia se mudado de Jordanópolis, o bairro onde fazíamos trabalhos de escola.

 

Ao me aproximar do Pavilhão Vera Cruz, lembrei-me da grande quantidade de pessoas que eu havia visto no Paço Municipal da cidade durante o Primeiro de Maio, na época em que o partido da situação parecia fazer algum trabalho de base. Pensei em como ele devia estar esvaziado catorze anos depois, quando eu estava do outro lado do Atlântico. Era agora um outro cenário. Não era possível voltar àqueles tempos.  

 

Eu via pela janela nuvens em movimento. Pareciam vagões de um enorme trem branco. Aquele formato peculiar era familiar. Há alguns meses atrás, em Almada, era comum que eu me dirigisse à sacada do quarto que eu arrendava, puxasse uma cadeira e lá permanecesse, enquanto tomava uma xícara de café, na esperança de o tempo melhorar e eu apanhar um pouco de sol. Ironicamente, dali alguns meses, eu teria preocupação totalmente contrária em minha (sim, em minha) cidade. Senti saudades (hediondas, talvez) daquela vista, mas também muita felicidade por estar de volta ao Brasil e pelo fim do ano estar próximo. Nostalgia e Rodina.

 

Estava com fome e a boca seca, em contraste com a abundância interna que eu experimentava, o êxtase laico evocado por um Cioran ainda muito jovem e que até então eu não achava possível outro ser humano sentir. As palavras me faltavam para descrever aquele momento de aceitação dos fatos e de meu entorno tal como eles eram. O celular vibrou no bolso, mas me neguei a tirá-lo de lá, pois eu sabia que naquele horário ninguém (além de anunciantes) me mandaria mensagens. No terminal, entre duas linhas, ainda tive a sorte de escolher uma cujo ônibus chegou logo em seguida, completando aquele estranho e agradável fenômeno que em vão eu tentava reaver. 


A existência então se revelava para mim como um imenso contínuo sombrio, mas repleto dessas pequenas ilhas de luz dispersas aqui e acolá que não podiam ser buscadas, mas que cedo ou tarde nos encontravam.