Eudaimonia


Quinta-feira, 3 de novembro de 2024.

 

Fim da tarde. Eu voltava de Diadema e já estava na segunda condução, atravessando São Bernardo. Era para ser um dia que se encerrava como outro qualquer, mas foi único. Será que foram as imagens obtidas no microscópio ou foi a música que rimava comigo (https://www.youtube.com/watch?v=PhJz0HyJvcM)?

 

Passei pela parada Planalto e olhei para ela com curiosidade. Por alguns segundos, eu havia me esquecido de que Lucas não poderia mais estar lá àquela hora, esperando por ou descendo de um trólebus, uma vez que ele havia se mudado de Jordanópolis, o bairro onde fazíamos trabalhos de escola.

 

Ao me aproximar do Pavilhão Vera Cruz, lembrei-me da grande quantidade de pessoas que eu havia visto no Paço Municipal da cidade durante o Primeiro de Maio, na época em que o partido da situação parecia fazer algum trabalho de base. Pensei em como ele devia estar esvaziado catorze anos depois, quando eu estava do outro lado do Atlântico. Era agora um outro cenário. Não era possível voltar àqueles tempos.  

 

Eu via pela janela nuvens em movimento. Pareciam vagões de um enorme trem branco. Aquele formato peculiar era familiar. Há alguns meses atrás, em Almada, era comum que eu me dirigisse à sacada do quarto que eu arrendava, puxasse uma cadeira e lá permanecesse, enquanto tomava uma xícara de café, na esperança de o tempo melhorar e eu apanhar um pouco de sol. Ironicamente, dali alguns meses, eu teria preocupação totalmente contrária em minha (sim, em minha) cidade. Senti saudades (hediondas, talvez) daquela vista, mas também muita felicidade por estar de volta ao Brasil e pelo fim do ano estar próximo. Nostalgia e Rodina.

 

Estava com fome e a boca seca, em contraste com a abundância interna que eu experimentava, o êxtase laico evocado por um Cioran ainda muito jovem e que até então eu não achava possível outro ser humano sentir. As palavras me faltavam para descrever aquele momento de aceitação dos fatos e de meu entorno tal como eles eram. O celular vibrou no bolso, mas me neguei a tirá-lo de lá, pois eu sabia que naquele horário ninguém (além de anunciantes) me mandaria mensagens. No terminal, entre duas linhas, ainda tive a sorte de escolher uma cujo ônibus chegou logo em seguida, completando aquele estranho e agradável fenômeno que em vão eu tentava reaver. 


A existência então se revelava para mim como um imenso contínuo sombrio, mas repleto dessas pequenas ilhas de luz dispersas aqui e acolá que não podiam ser buscadas, mas que cedo ou tarde nos encontravam.