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Era estranho tentar escolher entre as poucas coisas que realmente fazíamos para sobreviver. Nosso mecanismo de recompensa é tal que todas elas normalmente nos dão prazer: O pão, a água, o sono. Mas hoje tive a impressão de que elegi meu favorito e por uma razão bem simples.

 

O sono me separava temporariamente desse sentimento incômodo de absurdo que permeava tanto a vida em si quanto a relação dos seres humanos com eles mesmos e o Universo. Por meio dele, eu era capaz de suportar a vida sem amaldiçoá-la, de abreviá-la sem perdê-la, uma vez que ele era necessário para se continuar vivendo. Praticando-o, eu me vingava, devolvendo ao mundo o silêncio e a indiferença com os quais ele diariamente respondia as minhas preces e os meus anseios.

 

De certa forma, o sono era um tipo bem-vindo e reversível de morte.

Dépaysement


Há algum tempo que o ser humano perdeu o hábito de olhar para cima. Talvez os deuses de outrora tenham sido substituídos, talvez seja apenas consequência do sedentarismo. Diferentemente de pintinhos e roedores, não temos predadores alados. Não há mais razões para nos atrevermos a decifrar erroneamente as nuvens no céu quando podemos culpar os meteorologistas. Além disso, o gesto de esticar o pescoço e levantar a cabeça, ainda que seja possível e natural, não é dos mais cômodos. Em resumo, é uma ação desconfortável e (que tem se tornado) desnecessária. Decidi então me beneficiar desta constatação.

No edifício do laboratório, percebi que um colega de trabalho subia as escadas do prédio para almoçar sozinho. Eu o imitei. Notei que havia uma porta destrancada naquele cômodo onde ele comia, em meio a armários, motores, componentes eletrônicos sem uso e papeis para rascunho. Quando a abri, conheci meu lugar favorito daquele edifício, o terraço. Ao escolher um dos quartos de um apartamento em Almada, durante meu estágio no exterior, fiquei com um que possuía uma sacada. Em ambos os casos, eu me entretinha com os transeuntes, imersos em seus afazeres. Eu sentia uma espécie de poder, de vantagem por não estar ao alcance de seus olhos, tornando-me praticamente invisível. Era também uma oportunidade de ficar pelo menos um pouco longe da terra, física e espiritualmente, ver o que os outros queriam e buscavam ganhar enquanto eu me esquecia temporariamente do que era meu, tal como se minha vida fosse apenas feita de nuvens, vento e sol.
 
Certa vez, algo de inquietante floresceu em mim. A distância que me separava deles parecia ser bem maior do que aquela que eu observava. “Como será que ele vê o mundo?”, disse uma colega na praia, enquanto via um tatuzinho caminhando diante dos meus pés. A mesma indagação surgia enquanto eu via meus irmãos de lá de cima. Como Meursault, eu poderia gastar um domingo inteiro naquele exercício se os elementos não me coagissem a me recolher. Ainda que eu não chegasse à conclusão alguma, ainda que aquele sentimento se agravasse. Não se tratava de nenhum desses delírios de grandeza, muito pelo contrário: Talvez eu estivesse mais próximo do tatuzinho, cego, que cavava e cavava sem saber aonde ia parar. Será que aqueles que eu observava em segredo também carregavam essa barra de erro sobre seus ombros? Eu discordava das alternativas que me vinham sendo apresentadas e tentava diariamente subverte-las, desde que eu não prejudicasse ninguém – eis a minha ética. Mas e eles? Com o que se importavam? Juntos nós seríamos mais fortes. “Tu pensas demais, és apenas um parvo”, imaginava-os falando ao caminhar.
 
Meu consolo é que pelo menos aqui eu posso dizer que sou, de fato, um estrangeiro.
   

Diálogo 3

  

Falávamos ao telefone ou pessoalmente? Já não me recordo. Mas era uma conversa sobre ela. Eis que a dita cuja surge para falar de si.

 

- Qual é a definição de epifania?

 

- É você conseguir fazer algo incrível e depois ter a impressão de que não fez aquilo sozinho.

Ortografia

 

Trate um dia comum como uma data especial e ela será extra ordinária.

 

Trate uma data especial como um dia comum e ela será extraordinária.


Fluido


Não sou artífice

Não sou filósofo

Não sou engenheiro

 

Não sei o que serei,

Se sou ou se estou,

O que será de mim

 

Creio que sou nada

Ócio, tédio

Conjunto vazio

 

As tais borboletas

No estômago dos

Réus e candidatos

 

Mas todos nós temos

Culpa e mérito

Em nosso Mundo-Cão

 

E também átomos

Por trás disso tudo

São cheios de nada

 

Então eu posso ser

Tudo que eu quiser

Zeros à direita

 

Cri... Ador... Atura

À qualquer hora

Lugar, tempo, grupo

 

Sou seiva, sou sumo

Sou o sal dos olhos

Sou sangue, sou suor

 

As paredes que me

Contêm, por bem e mal,

São temporárias

 

?

...

!

 

Acho que sou ator.

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Ruas e espelhos

Se quiser amostra

Grátis e similar.


Senhora dos Ventos

 

Almada, Senhora dos Ventos,

O que sopra em meus ouvidos?

 

Em Pindorama fugia das

Multidões durante carnavais

…Eis aí os seus companheiros:

Trens e arrebóis em Val Flores

 

No interior de seu quarto

Descobriu novo sentimento:

O medo de não poder dar um

Adeus àqueles que te amam

 

Sua missão não é encontrar

Novos caminhos para vencer

Mas sim permanecer naquele

Onde estava sem se perder

 

Minha brisa não pode mover

Sua humilde embarcação

Apenas congelar seus ossos

E transpassar o seu coração

 

Enganaram-te ao dizer que

Lograria por aqui estar

Em verdade, deveria ser:

Apesar disso, conseguirá.

Cigarros

 

Há algum tempo que não verso

Esta arte já não me cabe:

Poema é passarinho que

Voa na gaiola do peito

E canta nos olhos de quem lê

Um dia, do qual não me lembro

Abri de praxe o coração

Ele bateu asas, foi embora

Foi de chapéu comprar cigarros

Esperei… Mas ele não voltou.