Há algum tempo que o ser humano perdeu o hábito de olhar
para cima. Talvez os deuses de outrora tenham sido substituídos, talvez seja apenas consequência
do sedentarismo. Diferentemente de pintinhos e roedores, não temos predadores
alados. Não há mais razões para nos atrevermos a decifrar erroneamente as
nuvens no céu quando podemos culpar os meteorologistas. Além disso, o gesto de
esticar o pescoço e levantar a cabeça, ainda que seja possível e natural, não é
dos mais cômodos. Em resumo, é uma ação desconfortável e (que tem se tornado)
desnecessária. Decidi então me beneficiar desta constatação.
No edifício do laboratório, percebi que um colega de
trabalho subia as escadas do prédio para almoçar sozinho. Eu o imitei. Notei
que havia uma porta destrancada naquele cômodo onde ele comia, em meio a
armários, motores, componentes eletrônicos sem uso e papeis para rascunho.
Quando a abri, conheci meu lugar favorito daquele edifício, o terraço. Ao escolher
um dos quartos de um apartamento em Almada, durante meu estágio no exterior, fiquei
com um que possuía uma sacada. Em ambos os casos, eu me entretinha com os
transeuntes, imersos em seus afazeres. Eu sentia uma espécie de poder, de
vantagem por não estar ao alcance de seus olhos, tornando-me praticamente
invisível. Era também uma oportunidade de ficar pelo menos um pouco longe da terra,
física e espiritualmente, ver o que os outros queriam e buscavam ganhar
enquanto eu me esquecia temporariamente do que era meu, tal como se minha vida
fosse apenas feita de nuvens, vento e sol.
Certa vez, algo de inquietante floresceu em mim. A
distância que me separava deles parecia ser bem maior do que aquela que eu
observava. “Como será que ele vê o mundo?”, disse uma colega na praia, enquanto
via um tatuzinho caminhando diante dos meus pés. A mesma indagação surgia
enquanto eu via meus irmãos de lá de cima. Como Meursault, eu poderia gastar um
domingo inteiro naquele exercício se os elementos não me coagissem a me
recolher. Ainda que eu não chegasse à conclusão alguma, ainda que aquele
sentimento se agravasse. Não se tratava de nenhum desses delírios de grandeza,
muito pelo contrário: Talvez eu estivesse mais próximo do tatuzinho, cego, que
cavava e cavava sem saber aonde ia parar. Será que aqueles que eu observava em
segredo também carregavam essa barra de erro sobre seus ombros? Eu discordava
das alternativas que me vinham sendo apresentadas e tentava diariamente
subverte-las, desde que eu não prejudicasse ninguém – eis a minha ética. Mas e
eles? Com o que se importavam? Juntos nós seríamos mais fortes. “Tu pensas
demais, és apenas um parvo”, imaginava-os falando ao caminhar.
Meu consolo é que pelo menos aqui eu posso dizer que sou,
de fato, um estrangeiro.