Curuçá


Desde quando me mudei, perdi uma opção de linha de ônibus e ganhei outra para voltar para casa depois do trabalho. Ou seja, em um primeiro momento, tudo continuava a mesma coisa e nada havia de especial nisso.

 

Ao invés da linha municipal T14, que agora não me servia mais, eu podia tomar agora a S36. Quando a utilizo, vou com um motorista simpático, banguela, que usa um par de óculos e tem voz fininha. Não se dizer se é gordo ou se tem um tumor na barriga, mas é alto e de qualquer forma corpulento. Inicialmente eu tinha a vaga impressão de que seus passageiros eram mais idosos em comparação com os das linhas T14 e I02, mas depois eu notei a presença de indivíduos mais novos. Por outro lado, posso afirmar com um pouco mais de segurança que o Parque Novo Oratório é um bairro mais velho que outros por onde andei.

 

Quando pego esse ônibus, frequentemente me sento nos bancos do fundo, ao lado esquerdo, o que me permite ver, entre outras coisas, o Cemitério Nossa Senhora do Carmo. Como o nome é grande e Maria é uma santa muito requisitada, o logradouro é mais conhecido por Curuçá, tal como indicam os parênteses de uma placa de indicação com fundo azul na Rua Coreia. Na verdade, eu apenas soube do nome mais religioso na semana em que escrevi esse texto.

 

Era difícil, para não dizer impossível, ignorar o cemitério. Talvez seja assim sempre, mesmo se ao invés de “o” fosse “um”. Talvez simplesmente não possa haver “um cemitério”.

 

Geralmente havia pelo menos dois grupos diferentes de pessoas lá: O (s) daquelas pessoas interessadas no (s) morto (s) e outro, menor, composto por aqueles que não estavam. Seriam sempre os mesmos? Trabalhavam lá ou vieram apenas “tomar um ar”? Afinal, há trabalhos ruins… Eles falavam mais, riam. A quantidade de pessoas no primeiro grupo também me induzia a algumas indagações: Um enterro com poucos indivíduos sugere alguém pouco amado? De família pequena? Ou velho demais, cujos amigos morreram antes? Recorrendo à experiência prévia, não cheguei à conclusão alguma. Mas já estive no primeiro grupo. Três vezes, neste mesmo lugar.

 

“Talvez eu prefira a cremação quando chegar minha hora, não apenas por questões ecológicas, que desde cedo me sensibilizaram, mas também para que se despeçam de mim apenas uma vez, evitando assim os inconvenientes oriundos da exumação”.

 

Antes de o S36 virar na Rua Jorge Bereta, era possível ver um exército de pedras brancas no horizonte distante, uma fração das tantas lápides daquele cemitério. Talvez essa fosse a única coisa que me intimidava (ou chocava? Não sei dizer) no Curuçá: Havia muitos corpos enterrados somente naquele espaço reduzido, os quais substituíam outros que em outrora tomaram aquele pedaço de terra de outros. Morria-se muito, ainda que cada um de nós só pudesse fazê-lo apenas uma única vez. Ali havia a certeza de que nada era nosso, tampouco aqueles quatro metros cúbicos, se os vivos assim o desejassem.

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