Ruído

 

Sábados chuvosos demandam planejamento àqueles que não trabalham. Caso contrário, o indivíduo é instigado a confrontar a inquietude de sua mente. Alguns retornam às origens da espécie, época em que nada havia e era preciso criar tudo, o tédio era apenas ócio, tornava-se criativo. Outros simplesmente enlouquecem – voluntariamente, na ânsia de se livrarem de si, ou contra sua própria vontade, sucumbindo aos próprios pensamentos. Se eu dissesse pertencer a um grupo ou a outro, mentiria: Pertencer não era algo possível (ou concebível) para mim.


O ruído de meu pensamento me incomodava, não parecia original. Era possível ouvir uma voz que ficara meio aguda por conta da baixa qualidade das gravações dos anos trinta, quarenta… Provavelmente estava contaminado por Graciliano, já que eu vinha lendo suas memórias da cadeia em minhas idas a Diadema. Todos aqueles que eu lia pareciam interferir na melodia das palavras que vinham à tona em mim, como se eu tivesse absorvido temporariamente a forma de alguém contar histórias. Diferentemente de Paulo Honório, de São Bernardo, eu não fumava cachimbo, mas, tal como ele, bebia café àquela hora.


A chuva era bem-vinda porque com ela vinha a tranquilidade. Os animais da vila estavam quietos, abrigados em suas tocas, de modo que era possível me dedicar a tudo aquilo que demandasse silêncio. Contudo, diferentemente de meu conselho ao iniciar esse texto, eu não havia me planejado. Como sempre, era preciso me adaptar. Eu tinha que lidar agora com o ruído daqui de dentro. Queria eu chover dentro do quarto, de portas fechadas, ressonar e adormecer sossegado com a consequência de meu próprio ser. Mas chover era verbo defectivo, enquanto eu, seco e envenenado, comigo não podia.