Amanda


Eu devia ter meus quatro, cinco anos… As coisas mais antigas que consigo lembrar são dessa época. Não me recordo de nada antes nem depois nesse dia. Eu só me lembro de quando conheci Amanda.

 

Não me lembro do raio, mas provavelmente foi por causa de um que o interior da casa ficou escuro e, na ausência do que fazer, saí de lá de dentro com meus pais, tal como fiz durante outras quedas de energia elétrica. Para ver o tempo mudar. Chovia, trovejava, ventava…

 

Até então, na minha breve existência, eu nunca tinha sentido algo tão forte, algo que me fizesse temer por um mal desconhecido, inominável. Eu sentia a angústia pela primeira vez.

 

Chorei. Levantei as mãos para o céu. E pedi a Deus que fizesse aquilo tudo parar.

 

Muitos anos se passaram. As angústias também. Apareceram, multiplicaram-se, sumiram. Fazem parte das invenções do homem branco e de sua relação com o tempo. E não apontem seus dedos para meu rosto pálido, dizendo que sou um, pois seus próprios brinquedos dirão que no meu sangue há pelo menos três. E no de vocês também.

 

Mas Amanda não me deixava mais daquele jeito, foi assim somente quando A conheci. E sinto medo só de pensar que Ela um dia poderia partir, fazendo com que lá fora, um dia, se torne seco e sem vida.

 

Ainda me lembro da força que Amanda tinha naquele dia. Mas é mais comum encontrá-La de bom humor. E Seus passos pelas telhas e a terra me acalmam. Ao invés de me amedrontarem, me adormentam.

 

Amanda é mais forte que minha angústia. Quando Ela chove lá fora, chove aqui dentro também.

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