Era estranho tentar escolher entre as poucas coisas que
realmente fazíamos para sobreviver. Nosso mecanismo de recompensa é tal que
todas elas normalmente nos dão prazer: O pão, a água, o sono. Mas hoje tive a
impressão de que elegi meu favorito e por uma razão bem simples.
O sono me separava temporariamente desse sentimento incômodo
de absurdo que permeava tanto a vida em si quanto a relação dos seres humanos
com eles mesmos e o Universo. Por meio dele, eu era capaz de suportar a vida
sem amaldiçoá-la, de abreviá-la sem perdê-la, uma vez que ele era necessário para
se continuar vivendo. Praticando-o, eu me vingava, devolvendo ao mundo o
silêncio e a indiferença com os quais ele diariamente respondia as minhas
preces e os meus anseios.
De certa forma, o sono era um tipo bem-vindo e reversível
de morte.
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